Arquitetura do Corpo, Beleza e Bem-Estar

Lipedema não é apenas gordura

Lipedema não é apenas gordura: o que acontece com esse tecido?

Você se alimenta melhor, começa a se exercitar, perde peso, percebe mudanças no abdômen e no rosto, mas as pernas parecem responder de outra maneira. Além da desproporção, podem existir dor, sensibilidade, sensação de peso e facilidade para desenvolver hematomas.

É justamente aqui que precisamos desfazer uma ideia ainda muito comum: lipedema não deve ser entendido simplesmente como excesso de gordura.
O lipedema é uma condição crônica caracterizada por uma distribuição desproporcional e simétrica do tecido adiposo, principalmente nas extremidades, ocorrendo quase exclusivamente em mulheres. A dor é uma característica clínica importante nas diretrizes atuais.

O tecido adiposo também é um tecido vivo Quando falamos em gordura corporal, é fácil imaginar apenas uma espécie de “estoque” de energia. Mas o tecido adiposo é biologicamente ativo e muito mais complexo.
Ele envolve adipócitos, vasos sanguíneos, células imunológicas, matriz extracelular e estruturas do sistema linfático. No lipedema, estudos têm identificado alterações que podem envolver aumento dos adipócitos, mudanças vasculares e linfáticas e, com a progressão da condição, maior fibrose do tecido.
Isso ajuda a explicar por que olhar apenas para a quantidade de gordura é insuficiente. Uma revisão científica publicada em 2025 destaca que o tecido adiposo do lipedema apresenta características próprias e diferentes daquelas observadas na obesidade convencional. Entre os achados estudados estão alterações celulares, hipertrofia dos adipócitos em determinados estágios, fibrose progressiva e modificações da função vascular e linfática.
E ainda existe muito a descobrir.
A ciência continua investigando os mecanismos responsáveis pelo desenvolvimento e progressão do lipedema, e ainda não existem biomarcadores específicos capazes de responder sozinhos pelo diagnóstico. Por que emagrecer nem sempre resolve a desproporção?
Esse talvez seja um dos pontos que mais confundem as pacientes. Uma mulher pode apresentar lipedema e também apresentar sobrepeso ou obesidade. São condições diferentes que podem coexistir.
Quando ocorre emagrecimento, a redução da gordura corporal pode trazer benefícios importantes para saúde, mobilidade e composição corporal. Entretanto, a distribuição característica do tecido afetado pelo lipedema pode permanecer desproporcional.
Por isso, colocar toda a responsabilidade sobre dieta e exercício é uma visão limitada. Isso não significa que alimentação e atividade física sejam dispensáveis. Muito pelo contrário. Elas fazem parte do cuidado global, mas não transformam uma condição complexa em uma simples equação de calorias.
E onde entra a estética corporal? Primeiro, é preciso separar duas coisas: tratar uma doença e tratar características
estéticas associadas ao corpo são objetivos diferentes.
Na estética corporal, podemos avaliar elementos como qualidade da pele, flacidez, celulite,
contorno e composição corporal. Dependendo da avaliação e das necessidades de cada
pessoa, diferentes tecnologias e procedimentos podem ser considerados para essas
características.
Mas nenhum procedimento estético isolado deve ser apresentado como “cura do lipedema”.
O acompanhamento pode envolver diferentes profissionais e estratégias, especialmente
quando existem dor, edema, alterações vasculares, limitações funcionais ou outras
condições associadas.
É exatamente por isso que avaliação vem antes de protocolo.
Não trate apenas aquilo que você consegue enxergar
Talvez a maior mudança na forma de compreender o lipedema seja justamente parar de
enxergá-lo apenas como “gordura nas pernas”.
Existe tecido adiposo, mas também existem pele, matriz extracelular, vasos, sistema
linfático, músculo, composição corporal e características individuais que precisam ser
consideradas.
E quando o objetivo também envolve melhorar a aparência corporal, a lógica continua
sendo a mesma: antes de escolher uma tecnologia ou procedimento, precisamos entender
qual camada está produzindo aquela queixa.
Celulite não é simplesmente gordura. Flacidez não é simplesmente excesso de pele.
Volume não significa necessariamente obesidade. E uma perna desproporcional não
deveria receber automaticamente o rótulo de lipedema sem avaliação adequada.
Corpos complexos exigem decisões igualmente cuidadosas.
O corpo não muda por partes isoladas. Ele responde por camadas e por decisões.
Dra. Bárbara Steffani
Coluna Corpo em Camadas | Cozinha de Negócios
Referências científicas
RABIEE, A. Lipedema and adipose tissue: current understanding, controversies, and future
directions. Frontiers in Cell and Developmental Biology, 2025.
FAERBER, G. et al. S2k guideline lipedema. Journal der Deutschen Dermatologischen
Gesellschaft, 2024.
HERBST, K. L. et al. Standard of care for lipedema in the United States. Phlebology, 2021.
KAMAMOTO, F. et al. Lipedema: exploring pathophysiology and treatment strategies – state
of the art. Jornal Vascular Brasileiro, 2024.

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